Hoje, infelizmente, chegou ao fim o maior evento
esportivo de 2018. A Copa do Mundo da Rússia, responsável por nos propiciar
belíssimas impressões, tais como a confraternização de diferentes etnias,
emoções de diversos significados, superações e até manifestos políticos (que,
certamente, têm grande significado em busca da democratização). Mas, o Mundial
de 2018 não é só responsável por nos impressionar com o turbilhão de
sensações inerentes ao evento de tamanha magnitude. Dessa copa, também, podemos
extrair, entre outras, lições e evidências relativas ao fascinante mundo do
futebol.
Apesar de muita resistência por parcela da comunidade do futebol, após o clamar
do povo e muitas discussões, a FIFA, enfim, adotou o VAR (vídeo assistant
referee ou árbitro assistente de vídeo). De fato, um marco
significativo na sistemática do futebol. Esportes como basquete, tênis, vôlei
já tinham adotado um meio tecnológico para solucionar diversas polêmicas
inerentes a eles. Mas não é desses esportes que aqui tratarei, apenas
mostro-lhes que o futebol foi, de certa maneira, conservador em aliar-se à
tecnologia de forma direta, de tal modo que as câmeras não seriam apenas
responsáveis por transmitir para o mundo todo, em câmera lenta, por vários
ângulos, os brilhantes lances, mas passariam, agora, a serem cruciais para
ajudar o árbitro a decidir de forma justa. Mas não nos iludamos. O VAR não é,
não vai ser, e nunca será o meio tecnológico sinônimo de justiça (talvez não
exista esse meio, ainda). Ele é apenas um elemento que auxilia o árbitro a
tomar a decisão mais próxima da justa. Portanto, ainda há margem para erros e
iniquidades, e estes apareceram várias vezes na Copa. O que não podemos, porém,
é usar as imperfeições do VAR para deslegitimar a sua adoção. Muito pelo
contrário. Ao fim dessa edição do mundial, tivemos muito mais acertos do que
erros, muito mais justiça do que injustiça. Assim, a Copa da Rússia fica
marcada por ser a primeira a adotar o VAR, a primeira a demonstrar a evolução
do futebol por meio da tecnologia, mas também serve de exemplo para aprimorar o
tão inovador e polêmico árbitro assistente de vídeo.
Também, a Copa do Mundo de 2018 deu ensinamentos e exemplos no tocante ao
mentores fora das quatro linhas, o técnico. Especialmente para nós brasileiros,
ficou evidente que o cuidado para a escolha dos jogadores, seguindo o bordão,
tem que ser redobrado, ou melhor, “redobradíssimo”. Tite, ao convocar Taison e
manter Fred após a lesão nos treinamentos, foi nada mais, nada menos, que teimoso!
O treinador ficou, em inúmeras ocasiões “de mão abanando”. Com a lesão de
Douglas Costa e as más atuações de Willian, o substituto natural seria Taison.
Mas não, o técnico da Canarinha optou por não utilizá-lo, evidenciando que foi
uma convocação inútil. Em outras circunstâncias, era necessária a sacada de
Paulinho para por um jogador que equilibrasse sua atuação defensiva com a
criativa, para melhorar o abastecimento ofensivo. Mas, de novo, o técnico não
optou por utilizar Fred, mostrando insegurança quanto ao seu condicionamento
físico e o seu estágio de recuperação. Por que, então, manteve o jogador no
elenco, se tinha oportunidade de cortá-lo e escolher algum outro da lista de
espera? Na Copa do Mundo, assim como em todo torneio de curta duração, não há
espaços para teimosia e conservadorismo. Pelo contrário. Muitos dos times que
obtiveram sucesso foram os que os seus técnicos tiveram coragem e ousadia para
inovar. Didier Deschamps, técnico da França, após observar a atuação
limitadíssima do time contra a Austrália, em seu primeiro jogo, não relutou em
abrir mão da ideia originária e mudou o time, que posteriormente apresentou
melhoras significativas. Óscar Tabárez, técnico do Uruguai, da mesma forma,
conseguiu obter evolução ao mudar o meio de campo com a entrada de Torrera e
Betancur. E, por fim, o mentor da Bélgica, Roberto Martínez, consagrou-se com a
vitória em cima da seleção favorita, a brasileira, porque teve sagacidade para
alterar a tática. Enfim, fica como lição que numa competição de 7 jogos não há
espaço para teimosia, conservadorismo, o técnico tem que dançar conforme a
música e acompanhá-la nos seus ritmos mais lentos até os mais eletrizantes. Eu
diria que o ritmo da Copa seria o rock. Não há brecha para morosidade e falta
de ímpeto!
Por fim, podemos dizer que vivemos numa nova era do futebol. A era do futebol pragmático. Ficou claro, nessa copa, que o futebol é jogado de outra forma. Hoje, o modelo de futebol quebra paradigmas. É indiscutível que a preocupação com a preponderância física ganha destaque. Atualmente, com os jogos mais movimentados, mais disputados, a preparação física dos jogadores (seja ela adquirida ou genética), ganha protagonismo. A adquirida porque os jogadores são encarados, de certa forma, como máquinas, tendo que obter muita explosão, atingir a maior velocidade possível, ter resistência para correr os 90 minutos, ou melhor, os 120 minutos (por causa da prorrogação), entre outros. A genética, porque não se discute que os jogadores mais altos ganham passagem no futebol atual. A regra é que os jogadores mais altos preponderem sobre os mais baixos, e nessa copa não foi diferente. A Campeã Mundial, por exemplo, tem apenas um jogador que destoa na altura, o volante Kanté, mas que compensa com muita velocidade, muita resistência, e uma firmeza admirável na marcação. Além disso, é nítido que há uma escassez de jogadores habilidosos, ou melhor, dribladores, contorcionistas, que são capazes de entortar qualquer marcador e quebrar as linhas de marcação. São escassos, mas não ausentes. Nessa copa, por exemplo, pudemos nos encantar com as jogadas de Isco (ESP), Mbappé (FRA), Hazard (BEL), Perisic (CRO), Carrillo (PER), e o contestadíssimo Neymar (BRA), que apesar da má-fase, conseguiu mostrar lampejos de genialidade. Exatamente pela falta de craques, o futebol hoje se rende à bola parada. Por não conseguir desmontar a linha de defesa adversária, os jogadores fazem das bolas paradas as suas principais armas. Tanto é que, nessa edição, mais de um terço dos gols foram provenientes de bola parada. Podemos, sem dúvida alguma, apelidar a Copa da Rússia de “Copa da Bola Parada”.