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Análise | Tema da redação do Enem deste ano traz à tona várias espectros para discussão

YURI MENDES No último domingo (4), aconteceu o primeiro dia de provas do Enem, exame que serve de vestibular para o ingresso nas universidades públicas do país. Dentre as inúmeras críticas de que a prova é alvo – e sobre as quais não falará este texto, consigo perceber uma espécie de vantagem: uma prova a nível nacional, que propõe temas para redações de pessoas em todas as partes do país, provoca, ou tenta provocar, uma reflexão em uma escala tão grande quanto.


O tema é de absoluta relevância, uma vez que estamos diante de um cenário onde um presidenciável se elegeu, com larga vantagem no número de votos de seu adversário, pautado em uma propaganda fundamentalmente voltada a internet. Neste cenário, o tiroteio de acusações de FakeNews e manipulação trouxe ferimentos à confiança de alguns eleitores em qualquer meio de propagação de notícias. A maioria dos eleitores, porém, pareceu ser dopado por algum dos “lados” e assumido cegamente qualquer que fosse a narrativa.


A internet é parte integral da realidade globalizada atual. A sua “grande rival”, a mídia tradicional, já parece ter entendido isso em algum nível, tendo buscado se incorporar a ela de diversas maneiras. A velocidade das informações, o encurtamento das distâncias e a democratização dos espaços de opinião são marcas arraigadas a esta geração. Debaixo dessa sensação de liberdade, as pessoas constroem opiniões e compartilham ideias com os que estão no seu círculo de diálogo.


Digo sensação pelo fato de que a frequência da manifestação das opiniões, o volume de materiais existentes nas redes traz consigo um absurdo recorte das reais dimensões do Brasil, em termos de sociedade, espaço territorial, realidades. A percepção é de que diante dos expressivos mil, dez mil, cem mil amigos e/ou seguidores encontra-se o país em sua totalidade. Não há engano maior e pior. Justo por isso que é comum falarmos algo como “essa pessoa vive no mesmo Brasil que eu vivo?!”, quando diante de um pensamento contrário ao que é recorrentemente presente em nossas “timelines”. Pois é, talvez não.


Uma das inúmeras funcionalidades presentes nas mais diversas redes é a capacidade de manipular o conteúdo que chega ao usuário com base no que ele pesquisa, no que passa mais tempo vendo, no que segue. Esse mecanismo, além de diversos outros, tende sempre a formar bolhas digitais dentro das quais encontram-se as pessoas com posições ideológicas, religiosas, políticas parecidas ou iguais.


O processo comum que se vê acontecer é a perda progressiva da capacidade de dialogar por parte dessas pessoas. A comunicação deixa de ser honesta; torna-se um duelo de discursos. “Não vamos estender a conversa; você tem a sua opinião, eu tenho a minha e nenhum de nós vai mudar”, e outra fala comumente encontrada em debates, por assim dizer, nas redes. Essas atitudes reforçam e reproduzem a dificuldade do intercâmbio de vivências das pessoas.


Muito mais que opiniões, diversas realidades são invisibilizadas por estas bolhas. Dentro delas, existe apenas a reprodução de mais do mesmo que será repetido de novo, de novo e de novo. Este Brasil se parece, então, como um mosaico estilhaçado: diversos pequenos pedaços demonstram partes, mas jamais a grandeza, em todas as qualidades e imperfeições, de toda a obra. Ir em direção ao contraditório, ao que diverge do que pensamos, parece ser uma atitude de resistência. De quem quer apreciar a obra inteira, de quem deseja exercer cidadania verdadeiramente consciente de que o Brasil não cabe e nunca caberá de em bolhas, sejam elas de qualquer tipo.


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